
É realmente emocionante poder ouvir da voz dos próprios artistas suas obras declamadas, entender o processo por trás da criação de cada verso e da escolha de palavras. Mais ainda, entender os caminhos que o levaram até essas produções e o que os fizeram se tornar quem são.
SAMANTHA

Samantha Daniele de Abreu abriu espaço em sua agenda de produções culturais para contar sua história e, com sua voz calma e lágrimas emocionadas, compartilhou o por trás das páginas de seus livros e das ações literárias que realiza.
Nascida e criada em Londrina, a professora não se vê em outra cidade que não aqui, onde cresceu e se estabeleceu profissionalmente. Compartilha sua admiração pelo local em que vive com os artistas de fora que traz até aqui e que, impressionados, exclamam como a cidade os encanta mais do que haviam imaginado.
Sua predisposição às palavras surgiu quando ainda jovem, em um momento em que sua mente pedia refúgio para tantos pensamentos, encontrando nos livros um local de calma e respiro.
“Na adolescência, principalmente, eu era muito caótica. Eu tinha uma cabeça muito caótica, uma imaginação muito fértil. E quando eu comecei a ler, adolescente, eu me lembro de sentir uma segurança no mundo. Era como se eu encontrasse um lugar em que na minha cabeça tudo ficasse em silêncio. E aquilo foi me ajudando a me organizar.
De onde surgiu essa predisposição é uma dúvida que paira em suas memórias, uma vez que sua família, mesmo que muito artística em outras áreas, não teve papel incentivador na leitura, em específico. Como se fosse predestinado, Samantha por si só encontrou o caminho até aqueles que passariam de seus melhores amigos a parceiros de profissão.
Em 2006, formou-se em Letras na Universidade Estadual de Londrina, a princípio com o intuito de trilhar caminho nas salas de aula. Até experienciou o mundo acadêmico, mas percebeu que talvez ali não fosse seu lugar. Após alguns anos se dedicando ao trabalho em uma grande empresa e realizando ações literárias pontuais, como o Londrix (Festival Literário de Londrina), em 2018 encontrou a vaga tão esperada para trabalhar no local referência em cultura da cidade, o SESC Londrina, onde atuou na unidade do Centro até 2019, quando foi transferida para a unidade do Cadeião que recebe os eventos culturais e literários da cidade.
Nesses seis anos, assumiu a liderança de 14 projetos culturais como eventos literários, debates e rodas de conversa. Apenas em 2023, trouxe 32 artistas brasileiros das mais variadas regiões, além de abrir espaço para mais de 50 artistas londrinenses. A própria Samantha se surpreende ao apresentar esses números, uma vez que, mesmo trabalhando no cenário cultural, não havia reparado como a cidade de Londrina é casa para tantos artistas.
Com orgulho, ela relata diversas experiências emocionantes que passaram pela sede do SESC Cadeião, em especial, destaca duas rodas de conversa promovidas durante a Semana Literária de 2023 que marcaram o espaço com grandes nomes e histórias inspiradoras.
Aline Bei, autora vencedora do prêmio Jabuti em 2021, também esteve em Londrina durante a Semana e preencheu o espaço do SESC com leitores da região que ansiavam ouvir as palavras daquela que lhes tiraram lágrimas com seus dois principais livros: Pequena Coreografia do Adeus (Cia. das Letras, 2021) e O Peso do Pássaro Morto (Nós, 2017).
Este último, Samantha destaca, a impactou de tamanha forma que só de falar sobre, ela se emociona.

É da sensibilidade de reconhecer nas palavras uma força inspiradora e inestimável que Samantha faz uso para escrever suas próprias histórias. Escritora como consequência de seu perfil de leitora, já publicou diversos livros e conta com mais dois em produção. A maior parte composto por poemas, que ela ressalta serem provenientes de percepções, não necessariamente de suas vivências.
Seu primeiro livro, Fantasias para Quando Vier a Chuva, publicado em 2011 pela editora Orpheu, veio de um convite inesperado e sinalizou como seriam suas futuras publicações: em sua maioria, coletâneas de poemas que escreveu em momentos diversos e que seguem um fio condutor comum.
Quando questionada se possui uma rotina de escrita, Samantha relembra uma frase célebre de Clarice Lispector, que resume a forma do seu fazer literário: “eu não sou profissional. Eu não escrevo todo dia”. Seus textos surgem de forma orgânica, quando seus pensamentos precisam ser colocados para fora e condensados em palavras escritas, mas que não necessariamente se configuram como rotina em sua vida e, muito menos, como uma demanda profissional.

Um trabalho detalhista e de cuidado que lhe rendeu o prêmio Outras Palavras, promovido pelo Governo do Estado do Paraná, durante a pandemia. Uma surpresa que a motivou no momento certo e mais necessário, mesmo sendo concedido para um gênero literário que Samantha não explora com recorrência.
O Mulheres Sob Descontrole (Atrito Arte, 2015), seu livro de contos, sempre a surpreende pela forma como é bem recepcionado, levando não apenas a premiação, mas também um patrocínio pelo PROMIC, o Programa Municipal de Incentivo à Cultura. Para Samantha, mais que o reconhecimento, ser premiada em plena pandemia se mostrou uma verdadeira luz frente a todo o caos da época.

Neste processo de escrita mais livre e de curadorias periódicas, Samantha vai se surpreendendo com sua própria escrita e os pensamentos que a levaram até aquela produção. “Para mim, o texto é uma ideia na minha cabeça. Quando me dá aquele ímpeto de começar a escrever, começam a aparecer palavras ou conotações que depois eu falo: Meu Deus, como eu pensei isso?”. Mas, por ser antes de tudo leitora e admiradora de grandes escritoras, ela valoriza de fato os retornos que recebe sobre suas produções, afinal, como ela mesma diz, “a melhor parte de escrever é a ressonância, os ecos que ficam fazendo depois”.

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